Nomes próprios
Novo livro de Marcelo Moutinho, "Gentinha", tem como tema secundário a importância de se nomear. Mas eu só reparei nisso porque há dois personagens (também secundários) chamados Ronaldo
No seu último livro, Gentinha, o camarada Marcelo Moutinho se propôs a fazer a “história de quem constrói o país”, como ele escreveu na dedicatória do meu exemplar. Seus personagens são aquilo que a gente chama de forma extremamente generalista de “pessoas comuns”. Isso porque não fazem parte dos considerados intelectuais, artistas, acadêmicos, do pessoal enfim ligado à cultura, num sentido bem específico — ou, fazendo uma crítica à certa tendência literária, esse povo que geralmente aparece em determinado tipo de livros da atualidade.
Mas há um tema que, embora não esteja no primeiro plano das suas preocupações, perpassa boa parte dos contos: o nome.
Ainda estou na metade do livro, momento que considero o ideal para escrever sobre a obra — é quando a empolgação atinge o ápice —, mas o mote aparece de forma direta em pelo menos uma das curtas narrativas: “Eu sou seu lírio, você é minha rosa”. É uma questão tão central na historieta que é impossível abordá-la sem dar spoilers cruciais. Mas, digamos, tem a ver com a mudança de nome de um certo Jorge Duílio Lima Meneses (procure saber).
Em outro, “O experimento”, o narrador já começa falando: “O nome também era Rodrigo, então lá em casa ele passou a ser o Silva”. E continua: “Eu estranhava isso de chamar alguém de Silva, o sobrenome de tanta gente por aí. Se você gritar Silva no meio da rua, provavelmente muitas pessoas vão olhar e vai ser preciso definir, no meio daquele coletivo, quem é o alvo da convocação”. O personagem perde o prenome para se transformar em mais um, apenas. Talvez essa seja a razão de como o Rodrigo lida com o Silva ao fim.
Em um terceiro, “Paladar infantil”, há uma piadinha entre irmãos, sobre os nomes: “O nome dela é Isabelly […]. Tenho senso estético o suficiente para me recusar a falar um nome pedante como Isabelly. O meu nome é Lucca, com dois cês, como a mamãe sempre faz questão de pontuar. Não é lá um primor, mas melhor que Isabelly, com certeza”. O senso estético, então, segundo o narrador, atingiria até nomes próprios — o que eu não posso concordar mais.
Principalmente por atender por “Ronaldo”, um nome que parece vir com um casaco de tricô de padrões geométricos, com cheiro de guardado. Até uns 12 anos, a minha única referência a outro Ronaldo era, evidentemente, o meu pai. Por isso, na família e nos mais próximos, sempre fui diminutivo, Ronaldinho e suas variações mais estranhas, Naldinho, Dinho, Nado...
Depois, descobri que houve um boom de Ronaldos a partir da eleição do Ronald Reagan nos EUA. Tristeza. O Cristiano Ronaldo, por exemplo, é dessa geração. Antes do gajo, houve ainda, como sabemos, Ronaldo, o Fenômeno. Ou apenas Ronaldinho, quando surgiu. Como também sabemos, ele teve que mudar de “alcunha” quando apareceu outro Ronaldinho, o Gaúcho, o Bruxo.
Essa constelação de Ronaldos tornou o meu nome conhecido no mundo inteiro. Invariavelmente eu decepciono os meus interlocutores onde quer que eu vá, da Índia à Inglaterra, ao dizer que não sei nem fazer embaixadinhas.
Mas, ainda assim, Ronaldo parece um pouco mofado, como, sei lá, Nestor, Otávio, Paschoal.
Paschoal, aliás, era o nome do meu avô — pai do meu pai Ronaldo —, mas, reza a lenda, que ele teria se apresentado para a minha avó como Otávio. Ele nunca explicou direito o motivo, apenas especulávamos razões: ele não queria nada com a minha avó e inventou um nome. Ele achou durante muito tempo que o nome dele era mesmo Otávio. Haveria um hábito entre os da geração dele de inventar o próprio nome. O pai dele era Pietro, mas reza outra lenda, que era chamado de um nome diferente, o do irmão. Só para confundir? Minha avó, que conheceu um Otávio e não o Paschoal, o chamou de Otávio até morrer. Como deveria ser o Otávio?
Se há um estética para nomes próprios, haveria uma ética, também? Nomes próprios carregam seu destino? Quando um autor escolhe um nome para os seus personagens, mesmo secundários, eles querem dizer algo com isso? Qual manivela inconsciente está sendo mexida quando um termo é assoprado nos ouvidos e sai pelas pontas dos dedos?
Em Maquinação, minha tentativa de escrever uma distopia verde-amarela, uma personagem se chama Nora. Eu tinha em mente, certamente, a Nara Leão. O cabelo da Nara, para ser específico. Por acaso, o livro foi lançado pelo seu sobrinho-neto, dono até hoje do violão da tia-avó. Uma vez, na análise, descrevi o perfil psicológico de Nora e minha analista respondeu: é uma norinha, mesmo, que toda sogra deseja. Nunca tinha reparado nessa associação.
Em autoassassinato, minha tentativa de noir tropical, o detetive principal se chama Carlos Menezes. Tempos depois eu percebi que os meus chefes no G1, onde trabalhava na época que eu o escrevi, se chamavam Carlos Peixoto e Márcia Menezes. O inconsciente nunca dorme.
Eu nunca tinha lido um personagem Ronaldo até o livro do Moutinho (ou do Marcelo?). Ele não satisfeito, colocou logo dois. Mesmo que secundários, é mais que eu vi na vida. Isso até a metade do livro. Se aparecer mais daqui para o fim, posso pedir uma música?
O primeiro aparece rapidamente em “Sentimental sou eu”, como um colega de trabalho no quiosque da praia do protagonista Herosino — “Herosino” seria um heroizinho? — de quem ele não confia. Ronaldo parece suspeito, mesmo.
O segundo figura no já mencionado “O experimento”. Embora seja secundário e tenha pouca exposição, sua participação é fundamental para o conto, diferentemente do colega do Herosino, que só aparece para ilustrar um detalhe.
É o segundo Ronaldo quem dá a camisinha para o protagonista, Rodrigo, que vai causar toda a tensão da narrativa, com o outro Rodrigo, o Silva. Dessa vez, porém, “Ronaldo sabia das coisas” e dá todas as indicações de como usar o preservativo para o garoto — mesmo sendo da quinta série. Seria uma compensação por não ser confiável em outro conto?
Joguei no google e pedi para me falar sobre personagens ficcionais chamados Ronaldo. Há, claro, até personagens de novela. Lembro aliás de Ronalda Cristina, da Armação Ilimitada, o que pode dar um bug na geração aficionada pelo CR7. Mas ninguém realmente impactante. Sempre secundários.
Não é exatamente um nome popular. Tudo bem que outras 238.744 pessoas no Brasil o carregam como prenome, mas é apenas o 129º nome mais comum do país. O auge, como mencionei, foi na virada dos 1970 para os 1980. A idade média é 43 anos. R9 tem 49, R10, 46, CR7, 41, só para ficar nos futebolistas.
Se os cabalistas acreditam que haveria um nome de Deus que, ao pronunciarmos, tomaríamos para nós os poderes divinos da vida e da morte, será que estamos condenados aos nossos nomes? Será que o nosso nome carrega um destino, um destino oculto que poderia ser desvendado pelos iniciados? O pessoal da numerologia, por exemplo, acredita nisso. O seu Jorge Duílio, ali de cima, certamente acredita.
Em algumas civilizações não-ocidentais, as pessoas acumulam nomes, ao longo da vida. A cada fase, um nome a mais, como se a história pudesse ser pronunciada a cada vez que a pessoa fosse nomeada. Em outras, os nomes são substituídos, para demonstrar que sempre mudamos, para ressaltar a efemeridade das coisas. Há ainda aquelas em que o verdadeiro nome da pessoa nunca é revelado em voz alta, já que ela conteria todas as suas verdades, e assim poderia estar se mostrando demais.
Nós, ocidentalizados, somos nomeados por outras pessoas e, com raras exceções, portamos a mesmíssima alcunha até a morte. Mas somos chamados de diferentes modos a cada grupo social que pertencemos. Temos apelidos carinhosos, temos apelidos implicantes, temos nomes de alcova, temos segredos só ditos entre quatro paredes. Não somos um único, jamais.
Na única vez que fui premiado por um concurso literário, estava usando o Júnior, como se dissesse que eu não era o meu pai, ou como uma forma de me diferenciar dele. Por conta do resultado, pensei que tinha dado sorte e resolvi insistir. Depois, talvez por nunca mais ter conseguido nada, achei apenas muito infantil essa tentativa, além do próprio “Júnior” sê-lo necessariamente, e resolvi abandoná-lo, roubando assim o nome do meu pai. Ele que lute. Mas como está morto há 35 anos, acho difícil.
Alguns amigos me chamam apenas pelo sobrenome, talvez para evitar tocar em um nome tão velho. Já fui confundido por Rodrigo, Ricardo, Renato e até, num erro de impressão de um programa de natação há quase 40 anos, Rovildo. O ápice.
É muito comum que me chamem de outro nome. Eu quase sempre deixo, para passar um tempo com outra personalidade. Ou talvez Ronaldo não combine comigo, faltam algumas décadas ainda para combinar. Como eu seria com um nome mais comum? Mais confiante? Mais banal? Mais popular?
Nem a etimologia ajuda muito: “o que governa com o conselho” ou “poderoso conselheiro”. Brega, no pior sentido.
É certo que nomes têm modas, vide os Enzos da vida. Hoje, é raro uma criança da tal classe que aparece em determinados livros ter mais de duas sílabas. Dora eu conheço uma penca. Bento, um monte. Tito, alguns. Mila, idem. Ronaldo, nenhum.
Moutinho, o Marcelo, gosta de nomes. Dizer isso parece não explicar muita coisa, na verdade. Mas não precisaria nem mesmo adentrar muitas páginas de seu livro para saber o que eu quero dizer. Basta ler a dedicatória: “Para a Lia”, o nome de sua filha. O verbo ler, a proposta, a missão. Vou considerar as menções, então, uma homenagem, mesmo que inconsciente.


