De malandragem e inocência
Sempre achei inusitado um certo trecho de Nietzsche em que ele defende que os homens nobres são inocentes e menos inteligentes pela sua coragem. Sempre me remete a um episódio de quando eu era pequeno
Há uma passagem da Genealogia da moral, meu livro favorito de Nietzsche, que sempre me pareceu inusitada, de um jeito ainda mais incomum que as demais passagens inusitadas de Nietzsche:
Enquanto o homem nobre vive com confiança e franqueza diante de si mesmo (“nobre de nascimento”, sublinha a nuance de “sincero”, e talvez também “ingênuo”), o homem do ressentimento não é franco, nem ingênuo, nem honesto e reto consigo. Sua alma olha de través; ele ama os refúgios, os subterfúgios, os caminhos ocultos, tudo escondido lhe agrada como seu mundo, sua segurança, seu bálsamo; ele entende do silêncio, do não esquecimento, da espera, do momentâneo apequenamento e da humilhação própria. Uma raça de tais homens do ressentimento resultará necessariamente mais inteligente que qualquer raça nobre, e venerará a inteligência numa medida muito maior: a saber, como uma condição de existência de primeira ordem, enquanto para os homens nobres ela facilmente adquire um gosto sutil de luxo e refinamento (…).
Sem querer entrar no pormenor de como Nietzsche define o homem nobre e o homem do ressentimento, dá para sacar que ele sugere que nos comportemos como o nobre e evitemos o ressentimento.
Ao mesmo tempo, ele também diz que o ressentido seria mais inteligente que o nobre — a palavra original é “Klug”, que segundo o tradutor Paulo César de Souza, poderia ainda ser “sagaz” e “prudente”, e que teria como equivalente no inglês “clever”.
O “fraco”, assim, seria mais ardiloso, matreiro, oblíquo que o “forte” — que por sua vez teria mais coragem de enfrentar os seus problemas de peito aberto. O fraco teria inúmeros estratagemas, usaria de vários métodos, calcularia as variáveis, anteciparia os resultados, enquanto o forte apenas agiria, seguiria em frente. O fraco seria mais malandro e o forte mais ingênuo.
É talvez a única vez no processo de definição do que seria a famosa “moral do senhor”, em contraposição com a “moral do escravo”, que Nietzsche sugere que o escravo teria uma qualidade que não é evidentemente “negativa”. O que o alemão quer ressaltar é a coragem do nobre diante da vida, mesmo que às vezes ele não queira enxergar a foto completa do cenário. Ele seria inocente como uma criança.
Duas são as razões de tal passagem me levantar o sobrolho, como faz o técnico italiano da seleção brasileira, Carlo Ancelotti. A primeira é por ser, mesmo que não necessariamente intencional, um comentário deveras europeu. E olha que esse livro tem passagens bem mais complicadas e, nos demais casos, explícitas.
Acontece quando ele fala, por exemplo, sobre as bestas louras, uma raça que “lança suas garras terríveis sobre uma população talvez imensamente superior em número”. Ou quando ele fala que os nobres se comportam como animais de rapina e os escravos, que seriam apenas carneirinhos, não poderiam reclamar quando fossem devorados.
Nos dois casos, há uma certa anacronia nossa de imaginar que Nietzsche estaria sendo um protonazista, ou ao menos dando ideia errada para gente errada. Ou, ainda, estaríamos desconsiderando que ele está querendo meramente causar (o subtítulo do livro é “Uma polêmica”).
Há diversas maneiras de interpretar tais trechos de forma a “entender” Nietzsche. Na passagem sobre a sagacidade do escravo não há isso. Até por não ter sido um elogio aberto, parece haver mais “verdade” no comentário.
O que ele quer ressaltar é um modo de agir que seria mais da coragem cega, em detrimento a um outro modo que fosse “estratégico”, “argucioso”. Ele defende o modo de ser de quem enfrentaria os perigos da vida sem pensar muito e critica os demais que ficam fazendo cálculos complicados para atingir seus objetivos.
Um psicanalista poderia dizer que o ressentido seria um neurótico clássico, com todas as suas antecipações de problema. Já o nobre seria um categoria híbrida, entre o perverso, por agir pensando em primeiro lugar em si, e do esquizofrênico, por não viver compartilhando da mesma realidade que os seus pares.
Há entre os dois, contudo, gradações. Essa divisão estanque nietzschiana parece denunciar seu lugar de fala (branco, europeu, elitista, etc.) mais do que ele gostaria de revelar.
Sempre imaginei, para mencionar um caso paradigmático, que haveria nas táticas de sobrevivência de povos escravizados uma sagacidade nobre. As inúmeras artimanhas criadas pelos africanos e descendentes que foram trazidos à força para as Américas para fugir dos seus cativeiros não me parecem um comportamento de moral escrava.
Os quilombos eram um modo nobre dos ex-cativos se reinventarem para que pudessem sobreviver mais uma vez. Nem sempre enfrentar diretamente é a melhor tática, mesmo da perspectiva da nobreza. É preciso saber desviar, talvez perder uma batalha para ganhar a guerra. E toda a ideia da ginga, para ficar no melhor exemplo, tem a ver com isso.
Há uma dureza no argumento nietzschiano que sempre me soou branco demais. Alguém que não tinha qualquer traquejo, jogo de cintura ou, para dizer no simples, molejo. Alguém que acreditava, piamente, que o ideal de nobreza eram os senhores feudais, que mantinham dentro das suas glebas grupos de plebeus para arar suas terras.
Nesse momento, eu não consigo deixar de lembrar daquela cena famosa do filme do Monty Python, Em busca do cálice sagrado, em que o Rei Arthur quer impor sua realeza a camponeses e os camponeses respondem que eles não tinham votado em ninguém para rei. É um pouco ridículo defender senhores feudais.
A segunda razão por que eu me assusto com essa passagem é de cunho extremamente pessoal.
Sempre lembro de quando eu era pequeno, menos de 10 anos, e da minha mãe me dizendo que eu era muito inocente em comparação com os demais garotos do clube onde nadava, que praticavam toda a sorte de malandragem. Eu seria facilmente engabelado por eles, ela dizia, eu deveria me precaver, me proteger.
Eu via essa inocência como algo ambíguo. Se por um lado eu queria ser malandro como os meus amiguinhos para não ser passado para trás, para não ser enganado, para, o principal, ter a capacidade de me adaptar de forma rápida às mudanças de vento que ocorrem no cotidiano, sem achar que o caminho é sempre imutável, por outro, eu valorizava nessa inocência o seu lado de pureza.
Não no sentido de ser “límpido” ou “sem mistura”, mas no de “candura” e “doçura”. Um modo de ser que, de certa forma, tento preservar até hoje. Uma ternura que, ademais, sempre vi como uma arma poderosa, talvez de um modo não exatamente nietzschiano, mas que funciona bem mesmo em embates mais tradicionais. Tenho uma cena para exemplificar isso.
Muito novo também, voltava da feira com a minha mãe quando passamos em frente a um prédio com meninos mais velhos e mais maliciosos. Os garotos estavam na rua e queriam implicar comigo de alguma forma. Eu senti isso no ar, antecipava o movimento. Eu sabia que eu era um alvo perfeito, um bom menino que ia à feira com a mãe, às vezes vestido com uma fantasia de super-herói, enquanto eles eram das ruas, malandros, cheios de argúcia.
Na hora em que eu passei perto do prédio, eles jogaram na minha direção o que hoje eu me lembro como um bagaço de laranja. A laranja pegou bem no meu pé e eu, que já tinha entendido todo o movimento antes mesmo de ele acontecer, tive uma reação inusitada até para mim mesmo: eu olhei para eles com um sorriso imenso, convidativo, franco.
Essa atitude interrompeu qualquer possibilidade de continuação daquela contenda. Com o meu sorriso, eles ficaram desarmados, sem entender o que acontecia, sem conseguir contra-atacar. O meu sorriso não era nada do que eles imaginavam que eu faria. A animosidade acabou em um instante. Tenho certeza de que nem minha mãe percebeu.
Mesmo não sendo nada religioso nem na época, mesmo sem poder reconhecer qualquer história bíblica, vejo hoje o meu movimento como uma versão da alegoria do “dar a outra face”. Eles foram pegos tão desprevenidos que não tiveram qualquer reação. Ao ser “bondoso” com eles, a partir da implicância, eu quebrei o círculo destrutivo bem no seu início. Não dava para eles continuarem, ficaram sem saber como se comportar.
Escrevo isso agora e penso se a minha reação foi exatamente inocente. Pelo que eu me lembro, sim. Mas não haveria na minha reação tão inusitada algum tipo de ardil ainda mais ardiloso que o dos próprios malandrinhos, de forma que os desarmasse e, assim, eu ganhasse a disputa? Eu não estava uns dois passos à frente e eles nunca imaginariam essa postura?
Ao suplantar a agressão deles e torná-la inofensiva, eu fagocitava os adversários e demonstrava que o que eles faziam não me importava em nada. Eu me colocava com uma superioridade intrínseca que não seria conspurcada por um mero bagaço de laranja.
Não haveria, dessa forma, uma malícia suprema nessa estratégia, de um outro grau de profundidade que eles nem imaginavam? Dar a outra face nunca foi um movimento humilde, mas de uma postura de superioridade sem comparação.
Ou talvez eles só não queriam continuar a implicância.
Ou talvez, ainda, não exista um ato totalmente isento de malandragem ou apenas inocente. Talvez, a malandragem e a inocência sejam mais próximos, gradações de uma mesma régua, e sempre agiríamos com porções de ambas, ao mesmo tempo.
Vejo ainda que malandragem demais pode atrapalhar. Quem está sempre muito ligado com as possibilidades de tomar um golpe, de ser colocado para trás, de se fazer de mané, por exemplo, também não consegue relaxar. Sempre está preocupado, antecipando os movimentos alheios, desconfiado ao máximo. Cansa demais gente assim.
É claro que vivemos num mundo cada vez mais sorrateiro. E se der mole, se cai nas armadilhas, se clica onde não deveria, se acredita em papo furado, se entrega o que não deveria para quem não merece. Porém nem sempre o esquema do malandro e do mané saindo de casa funciona. Eu diria que é uma exceção. Entre os dois polos, eu tendo a acreditar mais nas pessoas, em vez de me manter constantemente desconfiado. Talvez por pura inocência.
O que dá para ver nesse trecho da Genealogia, é que uma das melhores formas de entender Nietzsche, e toda a filosofia, quero crer, é nunca ler os textos clássicos como um material de autoajuda ou, pior, como algo religioso. Não é uma doutrina que diz o que devemos fazer, o que é o certo, quais são as ações a tomar. As interpretações precisam ser as mais criativas possíveis até para dar vida aquele pedaço de papel que foi produzido há séculos e até milênios atrás.
Mesmo filósofos progressistas sofrem dos preconceitos das suas épocas. Gente como Nietzsche, que tinha como fim desestabilizar as nossas crenças mais profundas, é ainda mais complicada. É difícil precisar o que ele realmente “queria dizer”. Nessa passagem da Genealogia, desconsiderando as suas “boas” intenções, vejo que sua proposta era associar, quase de forma cristã, os nobres a cândidos garotinhos, no melhor esquema do “vinde a mim as criancinhas”, propagado pelo JC. O cara que mais criticou o cristianismo se mostrava um grande cristão, afinal.
Há muitas formas, contudo, de ser nobre. Tenho certeza disso. Nem sempre a linha reta é a melhor distância para se chegar do ponto A ao B. Às vezes é necessário ter subterfúgios para viver mais um dia e conseguir relaxar no dia seguinte. O carnaval está aí para nos provar que sem malandragem não há movimento. Creio que Nietzsche, longe dos seus textos mais famosos, também acreditaria nisso.



"Enquanto eu era naturalmente inclnado ao deprezo, ao sarcasmo, ele tinha ar de bom garoto a quem tudo deveria sair bem sem esforço. Na verdade talvez fosse o contrário: despido de ambições, eu deixava as coisas me acontecerem, ao passo que ele comandava seu barco com uma maestria que tinha a elegância de esconder' - A Conversão - V. Volkoff