Ainda o ressentimento
Mesmo que todo mundo seja ressentido, há maneiras melhores e piores de lidar com a questão. Tanto no lado da organização social, que pode servir de combustível para atrocidades, como no âmbito pessoal
No último texto, eu explico muito rapidamente e num estilo esquemático como funcionaria o ressentimento. Dá para resumir ainda mais assim: é uma sensação de agressão sofrida sem ter a força necessária para lidar com o episódio.
Afirmei lá e repito aqui que ter ressentimento é algo comum entre as pessoas, independente de qualquer variável (gênero, raça, predileções, signo…), mas que há, em geral, duas maneiras de elaborar a agressão: quando se quer que o circuito seja interrompido para que possamos viver outras experiências; ou quem apenas quer jogar sua frustração, por não poder-querer lidar com a agressão, no colo de alguém ainda mais frágil, perpetuando o ciclo dos afetos tristes.
No primeiro caso, é preciso metabolizar essa agressão, aceitar a derrota, torná-la parte da sua vida, e seguir adiante. É com os nãos que se constrói a vida, não é mesmo?
Ou, ainda, é necessário criar uma maneira para virar o jogo por completo. Muita gente boa diz que as revoluções — essas de almanaque — são feitas a partir do ressentimento de classe. Exemplo sempre citado é a Francesa, protótipo de todas as insurreições que aconteceram depois (e até antes).
O terceiro estado se ressentia de ser muito mais populoso e ao mesmo tempo menos poderoso que os demais estados. Essa constante posição de inferioridade forçada fermentou as bases para que desejassem transformar toda a sociedade.
(Enxergo na chave do ressentimento a leitura negativa que Nietzsche faz em relação ao famoso episódio histórico francês, como se ele quisesse principalmente sustentar os próprios argumentos. Uma besteira nietzschiana. Mas, para passar um paninho rápido, é sempre bom lembrar que ele disse em um fragmento póstumo que não queria ser lido meramente como um pensador social.)
Há, portanto, um ressentimento “bom”, que é a origem de transformações — e que podem até acontecer no âmbito pessoal. E há um ressentimento “ruim”, que é quando não se quer sair da posição de ressentido.
Mencionei no texto anterior e falei aqui de passagem que uma das formas do ressentido tratar o seu ressentimento é atacar grupos mais fragilizados que ele. O problema desse tipo de reação é que o ressentimento não é transformado. Ao contrário.
Se não encararmos a origem do problema, o ressentimento se mantém. Os ataques descarregam o barril de fel, momentaneamente, mas o barril logo fica cheio de novo. Principalmente porque para esse ressentido, as agressões continuarão.
Pensa em quem acredita que o problema da sua vida é ter imigrantes que roubam o seu emprego (um caso pouco brasileiro, para sermos frios e distantes). Ele pode até atacar os imigrantes no intuito de aplacar sua raiva, mas como os imigrantes não são a causa do seu rancor (e sim o capitalismo), ele continuará se sentindo ressentido.
E como os imigrantes continuarão existindo, ele poderá pensar que a solução para o seu problema é acabar por completo com imigrantes. Vocês podem imaginar qual é a solução final desse emaranhado.
O que é curioso é que muita gente não quer mesmo resolver o seu ressentimento. E exatamente por esses motivos acima apresentados. Enquanto houver esse fel, esse rancor, essa raiva, ele continuará tendo, ao menos, um sentido para a vida. Odiar os imigrantes, no caso.
Como Nietzsche sempre dizia, com algum “por quê?”, as pessoas aguentam muito “como”. Com um caminho em que não é necessário pensar muito se estamos certos ou errados, apenas caminhando, ninguém precisa encarar pensar em respostas para o seu vazio. Para muita gente, é melhor se preencher de ódio que se perceber um pouco perdido. Por isso que a minha tese abordou ressentimento, fascismo e, last but not least, niilismo.
É dessa forma que a extrema-direita mantém e quer manter um formato ressentido: porque é importante ter sempre um alvo para onde apontar e descarregar o seu ódio. E esse ódio dá sentido para a vida de muita gente vazia e perdida.
Apesar de todo esse blábláblá, eu queria na verdade falar sobre um outro modo de se pensar o ressentimento, muito mais comezinho ou, mais precisamente, como encaramos o ressentimento alheio. Se somos todos ressentidos em algum momento da vida, essa sensação de agressão é das coisas mais comuns. Seria também banal, na acepção de desimportante?
Suspeito que todas as agressões que recebemos doam mais que as alheias. Não porque somos insensíveis e egoístas, mas porque, mesmo que tenhamos a máxima empatia pelo sofrimento alheio, quando o calo é nosso, sabemos exatamente onde e quanto dói.
É difícil, ao mesmo tempo, lidar com gente que gosta de ficar no sofrimento. São pessoas que de alguma forma gozam da dor já conhecida e que podem, sem pensar muito, atacar os usual suspects como os causadores da sua desgraça.
De alguma maneira, e é por isso que é interessante a relação entre o micro e o macro aqui, é o mesmo procedimento do fascista, com consequências infinitamente menores, bien sûr. Por isso que eu não gostaria de ser um terapeuta: não aguentaria quem repetisse eternamente a mesma lengalenga, sem aparentar vontade de mudar.
Ao mesmo tempo, tendemos, nós neuróticos clássicos, a uma repetição dos processos. Não de forma exatamente igual. Caso elaborada, é uma repetição espiralada e elíptica que se afasta de forma paulatina do centro de irradiação da questão. Como no sistema solar, é bom lembrar, contudo, alguns momentos são verão, outros inverno.
Algumas pessoas conseguem virar a página mais facilmente, outras carregam o problema por mais tempo. Os temas pegam diferentes pessoas de formas diferentes. Nem sempre ter noção da causa, do motivo, da origem é o suficiente para sair dessa órbita e navegar mais livremente. O tempo dessa digestão não é o cronológico.
Como lidar, então, com quem continua a repetir a mesma ladainha depois de um tempo? Ou mais simplesmente: como ter empatia por uma dor que é distante da sua? Não sei se há respostas corretas, mas tendo a me comportar de dois modos específicos.
Por um lado, eu preciso dizer que não tenho muita paciência para quem quer apenas gozar do próprio sofrimento. Daí a questão ali em cima sobre terapeutas. Até “aceito” que haja repetição, mas se percebo que o sentido da flecha do tempo é centrípeta, em vez de centrífuga, eu tendo a me enfadar.
Exatamente porque vejo que a pessoa não intenciona se modificar, apenas quer manter uma razão pela qual ela existe. Uma razão triste, infeliz. Não dá mais para perder tempo com tristeza — a deixemos para tempos mais felizes.
O segundo, e talvez mais importante, é tentar se manter à altura do sofrimento alheio. Não acima, e ignorando suas dores, tratando-as como caprichos, não abaixo, e fazendo com que a pessoa se torne uma espécie de vítima eterna. É buscar ficar na mesma vibração que a pessoa, recebendo de forma aberta a maneira que ela conseguir expor suas aflições.
É uma posição difícil, de paciência, que exige uma espécie de abertura para o outro e até um pouco de esquecimento de si. Não é fácil reproduzir no dia a dia, mas quando acontece é mágico. Cria-se uma conexão própria. É uma postura de igualdade, de se saber também frágil e exposto. De se saber vivo e, no nosso caso, humano.
Apesar de ter feito uma tese sobre ressentimento — e uma tese que serviu muito como uma válvula terapêutica —, luto com frequência para não cair nas trevas mais profundas do problema. Mas é aquela coisa, alguns dias são verão, outros inverno.




