Ainda o caso Ypê
O registro do que eu verdadeiramente queria ter dito na minha participação no programa Matinal para comentar (mais) esse episódio bizarro da extrema-direita
Eu sei, eu sei, o assunto Ypê foi atropelado pela confirmação do patrocínio do Vorcaro para o filme do Bolsonaro, implodindo a candidatura do Flávio Bolsonaro (fomos salvos novamente pelo Intercept). Mas queria deixar registrado mais que a minha participação no programa Matinal, do canal Amado Mundo, no Youtube, queria também detalhar o que, enfim, eu gostaria realmente de ter dito, e não consegui, sobre o comportamento bizarro da extrema-direita de até beber detergente para fazer um statement político.
(Primeira vez que eu atuo como fast thinker e primeira vez sempre é estranha. Lembro da minha primeira coluna no Globo quando morava em Londres, cujo tema principal ficou para o fim e saiu todo troncho. Escrevi em seguida um texto para o meu antigo blog, que veio para cá, em que o tema ficou bem mais inteiro.)
Confere aí embaixo as anotações para a aula, o vídeo da minha participação no programa e, se quiser algo mais profundo, tenho esse artigo aqui em que aproximo Nietzsche do Latour para falar sobre perspectivismo e relacionismo.
Primeiro segmento: fatos x interesse
Desde Jamais fomos modernos e A vida de laboratório, este escrito com Steve Woolgar, Bruno Latour critica a produção de fatos, principalmente os relacionados com o ambiente científico, mas não apenas, defendendo que todos os fatos não surgem do nada, não brotam do éter, mas são construções de diversas forças que atuam sobre ele.
Esse tipo de postura fez com que ele recebesse uma série de críticas, como, principalmente, ser chamado de relativista ou até mesmo inimigo da Ciência. Isso porque muito do pensamento lógico atual, que também trafega pela teoria do conhecimento, se baseia em propostas semelhantes a dos racionalistas dos séculos anteriores, acreditando que por meio do puro raciocínio se atingiria o fato — sendo este algo objetivo, existindo como que abandonado no mundo por mãos invisíveis. E, para esses, o meio privilegiado para se atingir o fato seria a Ciência. Essa aproximação ao problema é quase antagônica à proposta latouriana.
Latour não é contra a ciência, ao contrário, é um grande defensor, apenas rejeita a hipótese de que ela seria uma ferramenta necessária e epistemologicamente superior aos demais modos de interpretar o mundo: “A questão nunca foi se afastar dos fatos, mas sim se aproximar deles, não foi combater o empirismo, mas, pelo contrário, renová-lo.”
Quando ele escreve esse texto (“Por que a crítica perdeu a força”), em 2004, sua arma principal -- essa postura de desconfiança dos fatos -- havia começado a ser utilizada por negacionistas e outros teóricos da conspiração.
“O erro que eu cometi, foi acreditar que a única maneira eficaz de criticar os fatos era se afastar deles, direcionando a atenção para as condições que os tornaram possíveis” — num processo construtivista. “Mas isso significou aceitar de forma muito pouco crítica o que eram as questões de fato.”
Latour, então, escreve tal texto não para pedir que voltemos a acreditar nos fatos “puros”, como se eles existissem isolados, mas para lembrar que o mundo em que vivemos é bem mais complexo.
“A realidade não é definida por fatos. Os fatos não são a única coisa que é dada na experiência. Eu diria que as questões de fato são versões muito parciais, muito polêmicas e políticas das questões de interesse, e apenas um subconjunto do que também poderia ser dito o estado de coisas.”
No fim do texto, ele faz uma crítica ainda mais forte à proposta de usar os fatos como sinônimos de realidade:
“Fatos é uma definição totalmente implausível, irrealista e injustificada do que significa lidar com coisas. Fatos são aproximações ruins da experiência e da experimentação, um feixe confuso de polêmicas, de epistemologia, de políticas modernistas, que não podem de forma alguma pretender representar aquilo que uma atitude realista requer.”
Ele defende, assim, uma volta aos objetos, mas sendo pensados em toda a sua complexidade, uma espécie de “segundo empirismo”, um “retorno à atitude realista”, no que ele chama de questões de interesse: só assim seria possível resgatar o espírito crítico.
“o ponto crucial para mim agora é que aquilo que permitiu aos historiadores, filósofos, humanistas e críticos traçar a diferença entre o moderno e o pré-moderno, a saber, o surgimento repentino e um tanto miraculoso dos fatos, é agora posto em dúvida com a transformação destes últimos em questões de interesse altamente complexas, historicamente situadas e ricamente diversas. Pode-se fazer um tipo de coisa com canecas, jarras, pedras, cisnes, gatos, tapetes, mas não com a sincronização elétrica dos relógios do escritório de patentes de Einstein em Berna. Coisas agregadas não podem ser jogadas contra você como objetos.”
A intenção de Latour é, sempre, “acrescentar realidade aos objetos” (científicos ou não). Mas, ele acrescenta, no processo de criticar esse objeto como algo além do fato, “acabamos subtraindo um pouco dessa realidade”: qual é a “diferença entre desconstrução e construtivismo”?
Como colocar, então, mais realidade aos objetos? Trazendo à tona suas óbvias e inerentes complexidades, as qualidades claramente “de rede”, das questões de interesse.
Segundo segmento: fato x fantasia
Em vez de meramente criticar os negacionistas, ele tenta mostrar que não haveria uma grande diferença para aqueles que os criticam. Para tanto, ele vai falar sobre duas posições: posição de fato e posição de fantasia.
Papel do crítico: acusar crédulos ingênuos de projetar seus desejos sobre uma entidade material que não faz nada por si mesma. Criticam os ídolos e desacreditam os objetos da crença – deuses, moda, poesia, esporte, desejo, etc..
O único “consciente e atento, que nunca dorme, transforma aqueles falsos objetos em fetiches que supostamente não são nada além de meras telas em branco, sobre as quais é projetado o poder da sociedade, da dominação, seja o que for. O crédulo ingênuo acaba de receber um primeiro golpe”.
Polo dos fatos: se agarra a um “fato de estimação” “extraído da infraestrutura econômica, dos campos discursivos, da dominação social, raça, classe ou gênero, talvez até acrescentando uma pitada de neurobiologia, de psicologia evolutiva, seja o que for, desde que atue como fato incontestável cuja origem, fabricação e modo de desenvolvimento se mantenham não-examinados”
Não tem saída: todos jamais estaríamos satisfeitos com o processo.
“Quando crédulos ingênuos se agarram firmemente aos seus objetos, alegando que são forçados a fazer coisas por causa de seus deuses, sua poesia, seus objetos tão queridos, você pode transformar todos esses vínculos em fetiches e humilhá-los, mostrando que estes nada mais são do que suas próprias projeções, as quais você, sim, só você, é capaz de enxergar. Mas tão logo os crédulos ingênuos então se inflem da crença em sua própria importância, então em sua própria capacidade projetiva, você os acerta com um segundo golpe e os humilha novamente, desta vez ao mostrar que, o que quer que pensem, seus comportamentos são inteiramente determinados pela ação de causalidades poderosas vindas de uma realidade objetiva que eles não veem, mas que você, sim, só você, o crítico que nunca dorme, consegue ver.”
De uma lado, objetos científicos, que não podem ser explicados socialmente, de outro, os chamados objetos fracos, aqueles que parecem bons candidatos à acusação de fetichismo: não seriam ambas meras projeções?
“Os objetos são fortes demais para serem tratados como fetiches e fracos demais para serem tratados como explicações causais indiscutíveis de alguma ação inconsciente.”
Terceiro segmento: objetos como conjuntos
A saída, para Latour, estaria em pensar os objetos em toda a sua complexidade. Ele sugere buscar auxílio em Alfred North Whitehead, em seu livro Concept of nature.
“Para a filosofia natural, tudo que é percebido está na natureza. Nós não podemos escolher só uma parte. Para nós, o fulgor avermelhado do poente deve ser parte tão integrante da natureza quanto o são as moléculas e as ondas elétricas por intermédio das quais os homens da ciência explicariam o fenômeno.” (Whitehead)
Todas as filosofias subsequentes fizeram exatamente o oposto: elas escolheram só uma parte dos objetos.
Whitehead: “Assim, a matéria representa a recusa de se pensar até o fim características espaciais e temporais e de chegar ao conceito bruto de uma entidade individual. Foi essa recusa que causou a confusão de exportar simples procedimentos de pensamento para o fato da natureza. A entidade despida de todas as características, exceto as do espaço e do tempo, adquiriu um estatuto físico como o componente último da natureza; assim, o curso da natureza é concebido como sendo meramente o destino da matéria em sua aventura pelo espaço.”
Fatos devem ser pensados como “associações” (Whitehead e Gabriel Tarde) ou sociedades (Bruno Latour), uma reunião, compostos, coletivos, enfim, de forças que atuam constantemente no seu interior e que produzem, mesmo que momentaneamente uma estabilidade (daria para mencionar Simondon e o próprio Nietzsche aqui?).
Não é “a adição de algo mais humano que estaria faltando nos fatos inumanos, mas, antes, uma investigação diversificada, lançada com as ferramentas da antropologia, filosofia, metafísica, história e sociologia, para detectar quantos participantes precisam se reunir em uma coisa para fazê-la existir e mantê-la existindo.”
Parte 4. Conclusão
Comentar o papel do crítico, segundo Latour:
“O crítico não é aquele que desmascara, mas aquele que agrega. O crítico não é aquele que tira o tapete debaixo dos pés dos crédulos ingênuos, mas quem oferece aos participantes arenas nas quais podem se reunir. O crítico não é quem alterna aleatoriamente entre antifetichismo e positivismo, como o iconoclasta bêbado desenhado por Goya, mas aquele para quem, se algo é construído, então significa que é frágil e, portanto, requer muito cuidado e cautela.”


Além de acadêmico, é bonito e taurino. Parabéns!