Ainda a razão
Dois trechos, um sobre Clastres e outro de Foucault, mostram que razão é uma ferramenta excelente para lidar com o mundo, mas não a única.
A evocação do nome de Lévi-Strauss nos obriga, para concluir, a abrir uma exceção em nossa recusa em situar o pensamento de Clastres em relação a possíveis antecessores e sucessores. A publicação de O cru e o cozido, em 1964, transformou não apenas o campo da análise dos mitos mas o da antropologia como um todo e, talvez, o do próprio pensamento ocidental.
Preparadas por O pensamento selvagem, de 1962, as Mitológicas anunciavam que a Razão não representa a obra suprema de uma humanidade finalmente realizada mas, no máximo, o produto de uma cultura particular que, recusando, absorvendo e eliminando outras formas de pensar, afirmava e ostentava sua suposta superioridade. Contra tamanha presunção, Lévi-Strauss afirmou a existência do pensamento selvagem, estrutura universal subjacente a qualquer forma de pensar, inclusive àquela própria do Ocidente que denominamos Razão. O empreendimento de Clastres apresenta certa similaridade com o de Lévi-Strauss. Focaliza o Estado, não a Razão – mas conhecemos os vínculos que desde a cidade grega ligam os dois pilares sobre os quais se ergueu a chamada civilização ocidental. E a recusa das outras formas de pensar não é uma operação meramente intelectual; ela se acompanha de uma violência indissociável e constitutiva da própria Razão:
“Descobrimos no próprio espírito de nossa civilização, e coextensiva à sua história, a vizinhança da violência e da Razão, com a segunda não chegando a estabelecer seu reino a não ser através da primeira. A Razão ocidental remete à violência como à sua condição e ao seu meio, pois tudo aquilo que não é ela própria encontra-se em “estado de pecado” e cai então no campo insuportável do desatino. E é segundo essa dupla face do Ocidente, sua face completa, que deve se articular a questão de sua relação com as culturas primitivas.”
Essa fala tão cortante faz-nos lembrar que a Pierre Clastres devemos a compreensão de que qualquer antropologia é política, e que a crítica à universalidade do ponto de vista do Estado e da Razão não conduz necessariamente a um naturalismo. Afirmar que as sociedades indígenas da América do Sul tropical são sociedades contra o Estado não é pecar por romantismo, voluntarismo, metafísica ou idealismo filosóficos. Pode ser, bem pelo contrário, construir uma antropologia política específica.
Tânia Stolze Lima e Marcio Goldman, no prefácio de A sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres.
O problema ao qual Goffman se prende é o da instituição mesma. O meu é o da racionalização da gestão do individuo. Meu trabalho não tem como objetivo uma história das instituições ou uma história das idéias, mas a história da racionalidade, tal como ela opera nas instituições e na conduta das pessoas.
A racionalidade é o que programa e crienta o conjunto da conduta humana. Há uma lógica tanto nas instituições quanto na conduta dos individuos e nas relações políticas. Há uma racionalidade mesmo nas formas as mais violentas. O mais perigoso, na violência, é sua racionalidade. É claro que a violência é, nela mesma. terrível. Mas a violência encontra sua ancoragem mais profunda e extrai sua permanência da forma de racionalidade que utilizamos. Pretendeu-se que, se vivês- semos em um mundo de razão, poderiamos nos livrar da violência. Isso é inteiramente falso. Entre a violência e a racionalidade não há incompatibilidade. Meu problema não é fazer processo da razão, mas determinar a natureza dessa racionalidade que é tão compatível com a violência. Não é a razão em geral que combato, Não poderia combater a razão.
Michel Foucault, “Foucault estuda a razão de Estado”. Campus A ano, nº6, 24 de outubro de 1979, ps, 5-6. Publicada em Ditos e Escritos, IV.


