A saturnália
Retrospectivas de fim de ano sempre nos levam a nos perguntar: fomos bons timoneiros?
Um dos contra de ter me transformado em um ermitão é a dificuldade de lidar com as pequenas coisas do cotidiano, a vida fora da caverna, o papo furado, o “nossa que calor”, e o “e o seu time, hein?”, a valorização de situações que são muito distantes do seu dia a dia.
Datas tipo natal, evidentemente, ainda batem em certos lugares do meu passado e seria muito difícil passá-las completamente sozinho, por isso é uma troca que se faz. Por outro lado a forma como resolvemos lidar com esses momentos é sempre muito parecida, sempre com o retorno ao religioso — é fim de 2025 e ainda falamos de um salvador, é isso? Mas, eu sei, eu sei, é o preço a se pagar.
Como ontem, na confraternização, eu fiquei quieto e fizeram uma piada sobre eu escrever em vez de falar, resolvi então corresponder. Eu diria, talvez, algo assim:
Mais uma saturnália que nos juntamos por conta do solstício de inverno dos países do norte que nos colonizaram. Aos poucos, estamos tentando transformar essa festa originalmente pagã, que foi apropriada pelo cristianismo e depois pelo capitalismo, em nossa. Mas ainda vemos gente se vestindo como um sujeito barbudo com um casaco vermelho proibitivo para o verão tropical. Como tornar essa data mais nossa?
Em outras palavras: O que sobra para nós em uma reunião de fim de ano? Comer fartamente? Beber sem parar? Trocar presentes? Fazer piadas velhas? Rever gente que não revemos há muito tempo? Brigar com o tio bolsominion? Agradecer? Por quê? Para quê? Para quem?
Desculpem o amargor, mas vamos considerar, apenas por uns minutinhos, unicamente como um exercício mental, que não haja um Deus onipresente, onisciente e onipotente. Seria possível?
Se for, logo perceberíamos que estamos fazendo, nesses encontros, uma espécie de retrospectiva do ano — valeu a pena? Não valeu? O que foi bom, o que foi ruim, etc. E se estamos agradecendo, sim, valeu. E, se não houver esse Deus aí, estaríamos, então, agradecendo a sorte que tivemos no ano. Valeu a pena e que sorte que eu tive!
Certamente a sorte é dos elementos mais importantes que pode existir no mundo das aleatoriedades. Mas e se nada for aleatório e nem a sorte existir? Pensemos — já que começamos a especular — em um esquema de curto, médio e longo prazo de karma.
Se isso for muito, e eu nem gosto mesmo de karma, pensemos que nossas ações produzem reações em cadeia que muitas vezes não temos controle. Então estaríamos agradecendo a nós mesmos pelos nossos resultados — e aqui a coisa começa a me interessar.
Valeu a pena porque eu consegui fazer isso e aquilo, e aquilo outro nesse último ano. É um certo orgulho das próprias ações, e é sempre bom ter, um pouco ao menos, orgulho daquilo que fazemos. Orgulho demais, não — aí o umbigo da pessoa fica imenso e parece que tudo gira em torno dele. Mas um pouquinho é mais que necessário até para você saber que “deu certo” e “é por aí mesmo” que devemos ir.
Orgulho demais — assim como fé demais, mas por outros motivos — não cheira bem porque, como nos explicou o nosso filósofo maior, Paulinho da Viola, não sou eu quem me navega. É preciso sempre ter humildade ao adentrar a água e lembrar que estamos nos embrenhando em algo muito, muito maior que nossa chã existência.
Contudo, seu da Viola também deixa subentendido que um bom timoneiro sabe lidar com as intempéries do mar. Ou seja, não somos vítimas do nosso destino, temos autonomia (alguma) em relação ao que nos é direcionado. Podemos aprender a surfar as ondas que vierem ou só reclamar dos caldos que tomamos.
Ser um bom timoneiro. Eu apostaria meus dois tostões furados que é isso o que todo mundo gostaria de ser. Podemos dar diversos nomes para isso, mas no fundo é a mesma coisa: ser um bom timoneiro.
O mar, por sua vez, também têm vários nomes, mas para encurtar a história, chamemos nesse momento apenas de “vida”. E, se estamos agradecendo, nos consideramos bons timoneiros nesse último ano. E o que caracterizaria um bom timoneiro? Saber levar o barco em diferentes condições climáticas, mesmo quando o mar não está nem para peixe. Ao menos é assim que eu vejo.
Talvez para as outras pessoas seja ter comprado um barco maior, ou outros brinquedinhos tecnológicos que aparentemente — é como eles são vendidos — nos ajudariam a navegar no mar, ou sei lá, ter conseguido ver o time do coração ser campeão novamente. Mas sabemos que, embora possam ter um grande discurso sobre como devemos navegar, esse pessoal tem pouca autonomia no mar. Geralmente mal saem do porto. E o oceano é tão vasto…
É preciso ter coragem para sair porque o porto é confortável, é seguro, é certo. Não é exatamente uma crítica ou… vamos ser sinceros, pois natal e coisa e tal: é, sim, uma crítica. Porque sabemos que o porto tem o mesmo cotidiano se repetindo eternamente. Já dizia lá o ditado “mar calmo não faz bom marinheiro”. Imagine então se o porto faz bom timoneiro? Só vamos nos tornar outros, melhores, se enfrentarmos o mar aberto com suas surpresas — as boas e as ruins. As ondas são côncavas e convexas, sempre (repito isso para mim também, para não me esquecer).
Que possamos, portanto, a cada ano, descobrir uma nova habilidade náutica nessa jornada a que nos dedicamos. Até para nos divertir, né, enquanto navegamos, porque, senão, poderíamos até morrer de tédio.
E que venham muitas outras saturnálias.


