A escolha do estilo
O meu inconsciente é meu amigo e fica trabalhando para mim enquanto eu durmo. Recentemente ele voltou a me mostrar um sonho que era até uns anos bem comum, mas agora de forma 'ligeiramente' diferente
Nunca tive aqueles sonhos de estar de volta à escola, sem roupa, morrendo de vergonha, querendo sumir. Minha relação com a escola nunca foi complicada. Eu não me importava com ela, ela não se importava comigo. Meu trauma infantil-adolescente foi de outra categoria, de outra espécie: a natação.
Nadei dos 6 meses aos quase 16 anos ininterruptamente. Houve anos em que treinei praticamente todos os dias, com descanso apenas no domingo que não tinha competição. Em alguns períodos, treinava a tarde inteira. Caía na água às 13h e saía depois das 18h. Nesse período, cheguei a nadar mais de 10 mil metros por dia, com frequência. Meu recorde foi mais de 11 mil metros, divididos em dois turnos.
Vivia para a natação. Enquanto o pessoal pensava na festinha, na gatinha, na provinha, eu contava azulejo. Foi lá que minha psiquê foi formada. Na relação com uma feroz competição, num individualismo brutal, sabendo que o segundo lugar era nada, no máximo o primeiro perdedor.
Sonhei durante muitos e muitos anos com a mesmíssima cena, com algumas poucas variações. Estava competindo, nadando borboleta, e perdia. Poderia perder para o meu principal rival, o fulano que me venceu durante boa parte da minha “carreira”. Poderia perder para alguém que não conhecia. Poderia nem completar a prova. Poderia me movimentar de um jeito desengonçado, como se eu nem soubesse nadar direito, e parar no meio da raia, igual a quem está se afogando. O contexto mudava um pouco, mas a história era a mesma: nadava, e nadava borboleta, e perdia.
Borboleta é importante aqui. Dos quatro estilos, é considerado o mais difícil. Tão difícil que, nos treinos, geralmente os técnicos liberam nadar crawl junto, já que a mecânica subaquática é quase a mesma, e o esforço dispendido é bem menor. Foi o estilo que eu escolhi para nadar, foi o estilo que me escolheu para nadar. Ou assim achei durante muito tempo.
Essa “escolha” funciona numa relação de mão dupla, como, aliás, tudo na vida. Há uma tendência “natural” e uma construção “cultural” na decisão de a qual estilo você vai se dedicar. As fronteiras entre natureza e cultura são móveis, talvez o melhor fosse pensar em uma naturezacultura, como diz a Donna Haraway.
Eu nadava borboleta porque me sentia mais à vontade, seja porque eu tinha melhores tempos em comparação com os meus adversários, do que nos demais estilos, seja porque era uma distinção social, quase bourdieusiana diria — era para poucos, ou só os fortes nadavam borboleta etc. — seja porque, e o mais importante, a minha irmã nadava borboleta.
Tenho duas irmãs, bem mais velhas — dez e oito anos de diferença. A mais velha escolheu peito, que, naquela época, era um estilo quase inofensivo, brando, manso mesmo. Havia até a década de 1990, se não me engano, uma regra que impedia do nadador baixar totalmente a cabeça na água. Isso marcava o nado de forma indelével.
O peitista, então, deslizava pela água, de forma plácida, graciosa, com o cocuruto praticamente seco, mesmo quando em velocidade. Era muito diferente do estilo atual, extremamente agressivo, que se assemelha a um borboleta da década de 1980, como me disse um camarada ao enviar a final do campeonato europeu que está acontecendo neste momento (pois é: tem gente que assiste aos campeonatos de futebol ao redor do mundo, eu faço isso com os de natação).
O peito combinava com a personalidade dessa irmã, que sempre foi delicada, frágil, de fala mansa, que não gostava de natação e só nadava porque era obrigada pela minha mãe, que por sua vez achava que igualdade era fazer com que todos os filhos tivessem as mesmíssimas oportunidades, mesmo contra a vontade deles.
Foi numa dessas que eu tive que visitar a Disney aos 16 anos (depois de parar de nadar): minhas irmãs tinham ido décadas antes e eu precisava fazer o mesmo que elas, embora eu detestasse a Disney e tudo o que aquilo representa.
Minha irmã, dizia eu, escolheu o peito e foi escolhida pelo peito porque combinava com a sua personalidade. Da mesma forma que a minha outra irmã escolheu o borboleta e foi escolhida por ele: porque era agressiva, tinha garra, uma determinação taurina. Colocava na cabeça uma coisa e ia atrás.
Borboleta é o mais difícil dos nados e não é qualquer um que gosta ou que o encara. Para nadar borboleta é preciso se sacrificar um pouco mais que os outros nadadores. É ainda mais dolorido, é ainda mais cansativo, mais pesado. Poucos optam pelo borboleta.
Basta conferir a quantidade de pessoas que são inscritas nas provas de borboleta em comparação com os nadadores dos demais estilos. Na maioria das vezes, o 200 m borboleta é a prova mais vazia — porque é a prova mais difícil da natação. Mais que o 400 m medley, mais que o 1500 m livre. E olha que essas provas são de matar.
Minha irmã foi campeã brasileira e recordista de 100 m borboleta quando tinha 11 anos e venceu outros campeonatos nacionais ao longo da vida. Quanto parou de nadar para se dedicar ao vestibular, treinava para os 200 m borboleta. O recorde dela no infantil A era tão forte que quando eu passei na categoria, oito anos depois, o nome dela ainda figurava nos programas das competições.
Eu escolhi o borboleta porque queria ser igual à minha irmã, tão bem sucedido como ela, ter essa mesma raça, essa mesma garra. Era por isso que eu caía na água e treinava que nem um cavalo todos os dias santos. Ou assim eu fui levado a acreditar, já que minha mãe sempre repetia isso para mim: como eu não tinha a raça da minha irmã. Não sei, agora, mais de 30 anos depois, se o borboleta me escolheu de volta.
Até tive resultados razoáveis na natação. Mantenho no armário do meu quarto uma caixa de sapatos lotada de medalhas, dos mais variados níveis. Mas nada comparado ao que eu deveria ser. Na minha cabeça formada dentro da ética individualista e o espírito da competição, por não ter sido tão vitorioso, por não ter alcançado os meus objetivos, fui um fracasso completo. Daí os meus sonhos constantes, que duraram anos e anos.
Foi só há pouco, pouquíssimo tempo que eu parei de sonhar com natação, com a competição de natação, melhor dizendo. Diria que foi no período da minha tese, que defendi há dois anos.
Foi uma tese que versou sobre o ressentimento, esse afeto que a todos atravessa. Uma tese que eu confundia, sem sacanagem, com a minha terapia. Era comum eu dizer: vou pra minha tese, não, terapia. Ou o inverso: tenho que escrever minha terapia, pera, tese. Nesse momento, tenho certeza, diretamente do além-túmulo, Freud deixava escapar um sorrisinho.
Foi nesse período que eu percebi que a competição foi tão avassaladora para mim que, de alguma forma, eu me ressenti durante boa parte da minha vida por não ter dado certo, da forma como eu queria. Me via como uma vítima do mundo (ó!) e carregava esse peso nas costas, sempre me sentindo injustiçado pelo destino (ah, coitado).
Foi só com a tese, e esse encontro teórico com o ressentimento, que consegui elaborar um pouco melhor essa coleção de derrotas, chamemo-las assim. Foi só com a tese que eu percebi que são exatamente essas derrotas que me fizeram ser quem eu sou agora. Nem bom nem mau, apenas eu, por enquanto, ao menos. Depois, nem isso. Foi apenas nesse período que eu parei de sonhar comigo nadando borboleta e perdendo. Isso, até essa semana.
Três, quatro anos depois, eu me vi novamente no sonho da natação, mas estava um pouco diferente. Havia lá a piscina, o chão de pedras igual ao do clube em que treinei mais tempo, mas não parecia ser uma competição, uma competição como eu estava acostumado.
A primeira coisa que eu vi foi uma espécie de planilha, com o nome de um monte de gente na primeira coluna. Não reconheci ninguém, não importava quem estava ali, na verdade. Era só para dizer que nesse mundo havia mais gente, além de mim, gente que lidou de forma diferente que eu com traumas parecidos, gente que optou por outros caminhos, gente mais aberto a mudanças.
Na primeira linha, estavam lá os estilos e as provas que as pessoas poderiam nadar. Acho que era isso, não tenho certeza, mas é o que faz sentido para mim, agora, coletando esses cacos de memória lá do fundo do inconsciente. O resto do pessoal estava marcado em várias provas, isso eu lembro. Eu, contudo, só aparecia em uma única prova. Pensei, então, durante o sonho: “tenho que fazer diferente, tenho que ter mais opções, tenho que aceitar as mudanças”. Foi aí que eu escolhi nadar costas.
Ato contínuo: estou eu na água, nadando costas. Costas, o estilo dos estranhos, dos esquisitos, daqueles que vivem tudo ao contrário. E não era uma competição, ou uma competição da maneira anterior, a que estava acostumado. Estava eu apenas nadando, nadando, nadando, nadando.






